Boxing you.

Sabe o que eu queria de você?

Queria arrancar seus olhos e colocá-lo em um vidro bonito na sala de casa, só pra passar o dia olhando para eles. Queria cortar você todo, desmembrar cada pedaço do seu corpo e guardá-los em um freezer. Mãos, pés, tronco, pau, cabeça.

 

Mesmo estando em pedaços, só assim eu teria você por inteiro.

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História romântica pra ler num sábado á noite tomando sorvete de creme.

Você é uma garota meio séria que usa óculos não tanto pela cegueira, mas sim porque eles lhe dão um ar inteligente que poucos apreciam, e que veste aquela camiseta de um filme de zumbi do final da década de 80 na esperança de que alguém com um gosto duvidoso compatível com o seu puxe conversa com você no ponto de ônibus. Sim, você, garota. Você estará andando na rua, num bairro que você não conhece muito bem mas prometeu para uma amiga que passaria o dia na casa dela, e olha só, vai aproveitar para devolver os livros dela que há meses juntavam poeira na sua estante.

Aí você vai dobrar a esquina preocupada com o peso dos livros que carrega e mais ainda preocupada com os 35 minutos de atraso do horário combinado, porque você é uma pessoa bacana que se importa com horários marcados, praticamente uma britânica, exceto por odiar peixe frito e não ter dentes podres. Ao dobrar a esquina, olha só, um cara que está atrasado para a faculdade e vem apressado em sua direção vai esbarrar em você e ai, essa vida é muito engraçada. Poe, Lovecraft e dois exemplares de King cairão no chão, e você se abaixará automaticamente para recolhê-los porque puta que pariu, “A coisa” é difícil de achar por aí e você não pode estragar o livro da sua amiga senão ela ficará puta. 

O cara atrasado, que é bonitinho e tem algumas marcas de espinhas no rosto, vai balbuciar algo como “desculpe, foi sem querer” e “não posso perder esse ônibus” e vai sair em disparada para apanhar o linha ‘46-Paineiras’ deixando você aturdida e patética abaixada sozinha recolhendo os livros agora mais empoeirados do que anteriormente, devido a sujeira dessas calçadas. Você se sente solitária, desamparada, como num desses filmes do John Cusack mas sem a participação do John Cusack e sei lá, com o Steve Buscemi fazendo o papel do mocinho apaixonado por você. Que senso de humor a vida tem, não é?

Do outro lado da calçada, um cara magrelo e com um enorme rabo de cavalo, vai estar atentamente te observando, com um misto de curiosidade e pena, mas ele não pode atravessar pra te ajudar porque o trânsito na Itavuvu a essa hora é horrível. Ele veste uma camiseta daquela sua banda de death metal favorita e tem um sorriso lindo, mas infelizmente você não vai perceber isso, pois está mais preocupada em não derrubar novamente as porcarias de livros do que em ver aquele cara bonito que provavelmente você nunca verá.

Ai, essa vida é muito engraçada mesmo.

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But that’s not very far.

Há um enorme oceano separando a gente.

Oceano esse feito de estradas, trens, ônibus, mala cheia, saudade que não cabe no peito, mãos distantes uma da outra, choro na madrugada, noites frias e insones, recordação dos beijos doces e intensos, aquele espaço vazio filho da puta que insiste em perdurar na minha cama de casal, risos, mensagens de texto em horários impróprios, abraços que ainda aguardam o momento certo, lugar vazio no sofá pra ver aquele filme de terror tailandês, desejo interminável de sexo selvagem e conchinha pós sexo selvagem, aquela pizza vegana fria que comerei tomando café da manhã sozinha, conversas intermináveis pela webcam, vontade de ver seu cabelo esparramando no meu edredon, vontade de passar minha mão pela sua pele tão alva contornando os traços coloridos da sua tatuagem, vontade de ter você aqui comigo, vontade de estar perto de você, vontades, vontades. Um oceano feito de vontades.

Espero que eu não morra afogada nesse oceano.

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Munster, munster.

Eu o aceito.

Eu o aceito como você é, com toda a sua bagagem vinda do sofrimento passado. Aceito você com todas essas suas cicatrizes que o mundo julga, mas que te deixa tão imperfeito e é por isso que eu te escolhi. Porque você é errado, o monstro, sempre solitário. Porque também sou um pouco como você, sua dor é quase a minha, seu vazio é grandiosamente inatingível, assim como o meu. E assim, poderíamos juntar os nossos pedaços, esses corações em frangalhos e remendá-los juntos para sermos um só.

Eu aceito ser sua noiva, Frankie.


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Reciprocidade.

- Sabe o que você me dá vontade?

- Não, linda. O quê?

- Vontade de beijar sua boca. De te abraçar e grudar até você cansar de mim. De te ver dormir, te ver acordar, de passar um fim de semana todo ao seu lado sem ao menos sair do quarto. Vontade de largar tudo o que tenho aqui para ir ficar perto de ti. Vontade de ser sua, sempre. Pra sempre. Você me dá uma vontade nova e estranha, nunca antes vivida. Você me dá tesão de viver.

- Uau.

- Só isso? Apenas “uau”? E eu? Te deixo com vontade de quê?

- Ah. Você me dá vontade de ouvir Misfits.

Tristeza semelhante.

Ver você, mesmo que em fotografia

foi quase como reconhecer um semelhante.

Mesma camiseta, mesma banda,

mesmos óculos.

O mais espantoso foi notar

algo que mais me despertou curiosidade,

seus olhos.

Castanhos, bonitos,

mas tristes.

Acho que a tristeza que eles carregam

me chamam a atenção

justamente por não poder ver o meus próprios olhos.

Talvez se eu pudesse

eu veria mesma melancolia que vejo em  você.

Ao conversar com você pude notar

que somos mais parecidos

do que eu imaginava.

Menino bonito,

parece que o vazio que você carrega

é o mesmo vazio que me acompanha.

Em claro.

Acordei sentindo sua mão de leve na minha cintura e o ressonar morno da sua respiração.

Vontade imensa de rolar pra cima de você, beijar sua boca, morder seu pescoço, sentir seu cheiro, te abraçar e apertar, embolar nossas pernas debaixo do edredon, passar a noite em claro sentindo seu calor, fazendo sexo, sentir seu suor caindo em mim, te ouvir dizer “te quero”, ter você pra mim. Só meu.

Em vez disso, não ousei me mexer. Continuei imóvel sentindo o deleite das sensações, mão quente na minha pele, respiração leve no meu pescoço.

Passei a noite em claro me perguntando se você estava dormindo bem.

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Jardim.

Quem disse que o segredos das borboletas é deixá-las livres para que voltem ao nosso jardim, definitivamente, não entendia nada da vida. Nem de borboletas e nem de jardim.

Na verdade, o que acontece é que um jardim cuida de suas lagartas esperando que elas virem borboletas. E um dia elas viram. E a cada nova lagarta que vira borboleta, o jardim suspira como se fosse a primeira.
Mas com as asas vem o vôo… E com o vôo, o abandono.

E então, elas vão ser borboletas em outro jardim.



Por isso aprendi a não perder tempo com lagartas.

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Trevas.

Final de tarde, lindo e cinzento.


Ela pára na calçada, atenta, olhando para os lados. O movimento naquele horário era fraquíssimo, ela sabia. Passou muitas horas olhando para aquela rua, aquele muro, aquela pixação.

HOMEM = MULHER

Parece estar desajeitada, nervosa. Mas não de um modo ruim. Parecia mais uma garota em seu primeiro encontro. Na verdade, quem a visse diria exatamente isso. Tenho certeza que ela se sentiu assim quando sairam juntos pela primeira vez.

Ela abre a bolsa vermelha. Bolsa de mulher, cheia de coisas, procura um tempo pelo celular. Encontra-o perto do maço de cigarros semi vazio. Respira e disca um número.

- Meu anjo, sai na janela. Olha aqui pra baixo.

Um segundo depois, ele aparece. Olhar enfatigado, sobrancelhas cerradas, ainda com o celular na orelha. Ela o olha com ar de devoção, lealdade. Adoração seria a palavra pra descrever aquele olhar.

- Eu te amo demais. - Ela diz. Ele escuta, não responde. A observa com olhar inquisidor.

Ela abre a bolsa e guarda o celular. Remexe mais um pouco na bolsa, sabe como é, bolsa de mulher? Ela procura mais um pouco, parece cansada. E então, acha. Uma calibre 22, pequena. Cabo branco. Bonita. Arma de mulher, sabe como é?

Então ela aponta para sua boca. E dispara. Enquanto ele observa, incrédulo e inerte. O celular escorrega de sua mão e cai da janela do segundo andar. Janela onde os dois haviam feitos planos. Se espatifa no chão fazendo um barulho seco.

Não há mais que possa ser feito. Então, ele dá as costas e entra no quarto.

Na rua, alguém grita.


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Você sabe o que eu quero?

- O que você quer?

Essa pergunta, feita de uma forma tão despretenciosa, me faz divagar mesmo sem querer. Nunca havia reparado nas coisas que eu quero nesse momento. Ou talvez houvesse reparado sim, mas não com tanta clareza com agora.

Minha mente viaja pensando um beijo rápido, mas quente, úmido. É, talvez seria bom ganhar aquele beijo novamente. É, acho que quero isso.

Eu quero cumplicidade, mas não aquela forjada que sempre vejo por aí nos casais que ainda estão se conhecendo. Não, eu quero cumplicidade genuina. Mais do que a intimidade forçada, eu quero que tudo seja verdadeiro.

Quero andar de mãos dadas sem me preocupar o quão bobo isso seja. Quero abraçar no frio, e quero que me corpo trema tanto a ponto de eu não saber se estou tremendo pelo frio ou pelo efeito que o seu abraço causa em mim.

Quero passar uma noite inteira ao seu lado. Como naquela música em que ouvimos, não seria muito legal dar ‘boa noite’ mas continuarmos juntos? E quero que a noite acabe, e que ver o dia nascer ao teu lado. Ver a escuridão passar e o sol aparecer, meio tímido, mas quero que a claridade cegue meus olhos.

Quero conhecer cada pedaço do seu corpo, cada centímetro de sua pele, quero saber que gosto seu pescoço tem. Quero sentir o cheiro do seu corpo, ver cada cicatriz e cada história por trás dela, sentir cada osso e cada pêlo roçando minha pele. Quero me afundar no seu cabelo e ficar ali, sentindo aquele cheio tão familiar e tão calmante.

Quero ouvir cada história de sua infância, de sua vida. Quero saber o nome dos cachorros que você teve, quero ouvir você falar de seus pais, de suas avós. Quero ouvir você falar do seu primeiro porre, do seu primeiro beijo, da primeira vez que você fez sexo. Quero ouvir você falando a noite toda, e eu juro que ficarei em silêncio, sem atrapalhar. Eu não ligo, sua voz tem efeito meio mágico em mim, posso passar horas a ouvindo sem me cansar. Quero ouvir você falar do seu filme favorito, da primeira música que lhe fez chorar.

Quero fazer sexo com você. E também fazer amor. Quero sentir raiva de você, e ao mesmo tempo sentir carinho. Quero sentir que devo lhe proteger, e também quero que você me proteja. Quero que você me ouça quando eu falar alguma coisa importante, e que você ria quando eu falar alguma besteira. Quero que você corrija minha pronúncia quando eu falar daquele filme francês que tanto gostei. Eu vou rir, talvez finja que estou brava pela interrupção, mas é só um charme, você sabe.

Quero dormir ao seu lado. Quero ouvir sua respiração enquanto você estiver cochilando, quero ver você acordar, com os olhos mais pequenos que o de costume e com o cabelo todo desalinhado. Quero te ver mole de sono, quero até mesmo sentir seu hálito quente me beijando de ‘bom dia’. É isso que eu quero. Não é pedir muito, é?

Quero ver filmes ao seu lado. Quero ouvir você reclamar daquele diretor que você não gosta tanto, quero ouvir você rir naquela cena engraçada. Quero ver você prestar atenção ao filme, quando na verdade apenas queria que você prestasse atenção em mim. Quero ficar debaixo do cobertor, tomando Pepsi sem gás, fumando um cigarro ao seu lado vendo “True Romance”, quero nos enxergar no papel principal. Eu seria sua Alabama, com meu casaco de onça, e você seria o meu Clarence, com tanta história pra contar. E aí, como o casal do filme, você veria que tanto temos em comum. E talvez você olhe pra mim com esses seus olhos brilhantes e pense “Não vou deixar essa garota escapar de mim.” É isso que eu quero, que você me prenda ao seu lado. Que você não me deixe escapar. Tantos outros deixaram, você tem que ser diferente. Tem que ser especial.

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Quero te mandar um sms dizendo “Tô indo dormir e pensei em você.” Sei que você talvez não responda, mas eu não ficaria brava, juro. Sei que você também esteja pensando em mim. Quero que você me ligue no outro dia cedo apenas pra dizer “Sonhei com você. Foi um sonho estranho.” Eu não ligo, mas ao menos ficaria feliz por saber que você sonhou comigo. E assim eu poderia acordar já feliz e sentar no ônibus a caminho do trabalho ouvindo “Ring of fire” pensando em você.

Ando pensando muito em você e isso me assusta um pouco, pra ser sincera. Não é algo que eu possa controlar, os pensamentos só vem e se instalam, sem pedir permissão. Eu acendo um cigarro quando acordo de madrugada e fico pensando em cada palavra que você disse na última vez que nos vimos. Apesar do receio que tenho por estar pensando tanto em você, confesso que me sinto engraçada. Me sinto mais leve, de um modo peculiar. Talvez você não pense tanto em mim, não seja tão recíproco, ou talvez você me veja como a melhor amiga que já teve em toda sua vida. Não me importa. Eu quero que você pense em mim.

Eu quero deitar com a cabeça no seu colo enquanto você bagunça meu cabelo. Eu quero ficar ali, sentindo seus dedos longos percorrendo meu rosto, me fazendo carinho. Acho que poderei passar a eternidade ali, no seu colo, sem falar nada. Só… sentindo. É isso. Eu quero te sentir sempre. Quero você perto de mim. Mesmo que não seja ‘pra sempre’, mas pelo menos por um bom tempo.

- Queria saber o que você está pensando agora.

- Eu? Não tô pensando em nada concreto. Só viajando mesmo.

- Você parecia pensativa. Algum problema?

- Não. Nenhum. Tô bem, sério, apenas com um pouco de sono.

- Eu tinha perguntado o que você quer. Lembra?

- Acho que vou querer um cigarro. Você me acende um?